24 abril 2006

Música para não ouvir

Desprezar a revista Veja por sua linha editorial doutrinadora já se tornou parte tanto da minha vida pessoal como da profissional (mesmo que ainda em construção). Uma parcela deste desprezo se dá pelas pobres matérias sobre cultura distribuidas na revista, preocupando-se sempre com 'artistas' geradores de números (o mais vendido, a maior bilheteria e etc.) e não com artistas que merecem o título. O maior exemplo desse tipo de 'jornalismo cultural' feito pela Veja fica a cargo da coluna 'Musical', assinada pelo 'crítico' Sérgio Martins.
Sempre me frustrei com os textos sobre Música da Veja por um simples motivo: ao invés de encontrar algo relevante sobre a obra de um músico, deparo-me com fofoca sobre os mesmos. Obviamente tudo isso é uma péssima tentativa de imitar o jornalismo britânico, especialista em transformar fofocas em matérias elegantemente sarcásticas. Mas na escrita de Martins vira tudo esculhambação com um gostinho de inveja. Para ele Moby não passa de um chato por defender ideologias politicas e ser vegetariano. Caetano é um reclamão por defender suas opiniões. Wezeer é uma banda de bocós por não serem rebeldes. Maria Rita é uma oportunista que dá Ipods para jornalistas (essa foi uma das mais graves, pois a fofoquinha criada pela Veja só foi feita porque a artista recusou-se a dar exclusividade à revista). Mas e a música de Moby, Caetano, Wezeer e Maria Rita? Não sobrou espaço. A fofoca vem em primeiro lugar.
O alvo da vez foi a volta da banda Mutantes, com a cantora Zélia Duncan, que recebeu uma resposta à altura pelo músico Sérgio Dias Baptista, integrante da banda, em carta à revista. Duvido que a Veja publicará a carta de Sérgio Dias, assim como não publicou a carta de Caetano. Porém é mais provável que utilizem de um trecho, totalmente fora do contexto, para publicar na coluna Frases, distorcendo toda a história.
Logo abaixo vai a carta de Sérgio Dias Baptista, retirada do Observatório da Imprensa.
CARTA À VEJA
"Iluminai a nós pobres velhos decrépitos"
Carta do músico S.D.B. à revista Veja, a propósito da matéria "Dinossauros psicodélicos" (edição nº 1952, de 19/4/2006)

Isto é, veja só, imagino como Caê deva se sentir hoje com a nossa tropicália sendo elevada a "rodapé" e olhando a Zélia Duncan de "braço dado com dois sordados" indo pró cadafalso da ilusão...
Nós Mutantes queremos agradecer à grande luz e ins-piração dêitica (em minúsculo) do xará em questão, repórter eco de uma sombra ditatorial e imperial desassociada do compromisso verbal de Gil... ééééééé,,, ééééééé meu nego...
Sim, iluminai a nós pobres velhos decrépitos, semi-mortos que devemos realmente nos internar em um hospício, para a felicidade geral da veja contemporânea, pois afinal, a revista, assassina em baixo, em um "grave tom" tão baixo de calão de um calado tão entusiasta e estapafúrdio que sim, veio até nos alegrar o coração...
Sim, a iluminação foi finalmente alcançada. Após todo o psicodelismo e tantas viagens lisérgicas encontramos a luz neste nosso doravante adorado messias "Sérgio não sei o que lá" e achamos que sim, depois de tudo isto, nós realmente deveríamos encerrar a nossa já tão ridícula carreira rodeada de gente tão ínfima e ímpia, cujo pio nem assusta a uma coruja surda, como o tal dito cujo.
Mas messias é messias. Dentro desta realidade tão brasileira, da qual só nos resta mesmo é arrumar mais e mais igrejas para rezar, pois de nada adiantou até hoje o que de positivo foi feito nesta terra, pois sempre vira roda pé ou pó de sombra cadavérica no esqueleto da morte social, intelectual e burra imposta a nós. Sim, digo então, como lá na terrinha, ao povo, que "FICO" e acho que então devemos seguir a orientação maestrina de nosso novo Guru, o "Sérgio não sei do que", que fez eu nem sei o que... e joga búzios, pedras e predições homofóbicas em uma voz cheia de gritos estrógenos aonde pululam a fúria divina e a diabólica visão de profundidade dúbia...
Sim, seguiremos então cordeiralmente seus conselhos e agiremos como devemos corretamente e nos contentaremos em cancelar então todas as nossas aparições, pois elas já foram pré-destinadas pelo profeta "Bin Ladico Bushico", fuxico do fracasso. Então nós Mutantes deveremos nos transvestir de Homus- Burridicus para podermos sim sermos aceitos pela nossa tão querida "ora veja só"...
Será então que assim a faima (leia fome) destes carrascos que como a Luiz XVI nos decapita, e não capta a cabeça da coisa, doutor Guilhotin, que deveria sim pegar em armas (algo mais contundente do que o computador), pois afinal a pena é mais forte... e é de dar pena ...
Então acho que eu, Arnaldo, Zélia, Dinho, Rita, Caê, Gil deveríamos ir ao topo do tal hospital, antes voltando no tempo trinta anos, pois hoje não nos restaria força, e todos pularmos para a fauce abismal desta morte aleijão que tanto alegrará a nosso novo profeta, e, em sacrifício ao mesmo, gritando aos urros "Vivas ao Sérgio de ninguém" antes de nos estatelarmos no chão e ensangüentados, sermos varridos de volta ao pré-roda pé... podendo cantar...em último suspiro de antigos "ídalos"... Nowhere man... (Sérgio Dias Baptista, 15/4/2006)
Para quem interessar, um antigo post sobre o desastre semanal da Editora Abril: Chega de mentira, VEJA não, com links para a carta do Caetano Veloso.

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